COMUNICAÇÃO CONSTRUTIVA PARA UMA SOCIEDADE CONSCIENTE

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A Pandemia e o Desafio do Salto de Consciência

A crise global da pandemia em curso, sem precedentes na história registrada da humanidade, escancara vários enredos interdependentes dessa narrativa real de proporção épica e trágica. O enredo político, o econômico, o da saúde, o da comunicação coletiva, o da desigualdade social, o dos indivíduos, o dos povos, o da humanidade inteira. O alcance disruptivo de seu efeito é vasto, ainda não de todo mapeado com a precisão que só o tempo trará.

Subjacente a essa dimensão de realidade dos fatos sociais e humanos concretos, porém, circula, célere, o macro enredo sutil que igualmente reverbera, em choque de proporção planetária, nos cérebros e nos corações dos indivíduos, no campo coletivo de grupos e multidões, no oceano interpermeável da gigantesca mente coletiva humana no qual estamos imersos. Como toda grande narrativa de fôlego, esse corpo de enredos concretos e sutis está atrelado a um tema universal. Concordo com muitos pensadores de vanguarda e intuitivos visionários. Entendo que esse tema é o binômio consciência-evolução.

A base de compreensão parte de um princípio transdisciplinar em que a realidade é encarada como multidimensional e que a dimensão concreta e factual da existência interage dinamicamente com dimensões sutis, caracterizadas como campos energéticos. O modelo puramente cartesiano, materialista, reducionista e mecanicista de visão de mundo que alicerçou nossa civilização contemporânea, não responde mais às necessidades urgentes de ressignificação do mundo, neste tempo de incertezas e caos destrutivo/criador que vivemos. Precisamos dos modelos sistêmicos, holísticos, quânticos e de outras procedências de vanguarda que apontam esses outros níveis de existência, entrelaçados com a realidade de dados e fatos materiais. Todos movidos por um impulso de evolução e por um processo de consciência que atinge, neste 2020 pandêmico, um estágio aceleradíssimo de transformação.

Consciência, aqui, de maneira simplificada, é a noção/percepção que o indivíduo tem de si, do mundo à sua volta, das realidades internas e externas da existência. Pode ser classificada em graus distintos, do âmbito pessoal – em que o indivíduo identifica o seu “eu” como separado do restante da existência – ao planetário – o indivíduo percebendo o jogo complexo do sentido de sua interação com os seres vivos de todas as espécies, com a Natureza, com a própria Gaia, o nome mitológico grego da Terra. Gaia é também o nome da teoria científica que revela um princípio de inteligência que governa o planeta. O indivíduo também encontra o nível grupal, vendo-se membro de uma família, de um círculo de amigos, de comunidades afins – e o nível coletivo mais amplo – a humanidade como um todo. Isso sem contar o território sutil dos níveis paralelos onde se enquadram o psicológico, o simbólico, o arquetípico.

A evolução é entendida, aqui, como impulso natural da existência que alavanca a possibilidade do ser humano conquistar avanço de qualidade na expansão do seu nível de consciência. Nesse processo, a pessoa vai descobrindo que sua consciência, no patamar mais rasteiro, é fruto, na verdade, de condicionamentos e crenças  – provenientes da cultura, da sociedade onde está inserido, do seu grupo familiar, da sua etnia, dos meios de comunicação de massa, da educação – que na maioria das vezes são filtros distorçantes de sua capacidade de percepção do real. Sua visão de mundo é estreitamente limitada. Enxerga-se, por exemplo, como vítima das circunstâncias. A culpa dos seus infortúnios é sempre do outro. Não vê a contribuição própria para sua miséria.

É nesse patamar que se encontra a maior parte da humanidade. Forma a grande massa iludida, manipulada e conduzida, pelo medo, pelos donos do poder na política, na economia, na cultura.

Num nível imediatamente acima, o foco do indivíduo sobe para um patamar mais complexo, onde o horizonte se alarga para o início de uma compreensão integrada do mundo. Seu alcance de visão e interesse passa a incluir grupos sociais vastos e distantes. Percebe o dinamismo interativo entre sua individualidade e, talvez, a nação onde está inserido. Começa a constatar que tem alguma autonomia no jogo da vida e que é cocriador do seu destino. Pode sentir-se atraído por avanços de vanguarda no conhecimento de ponta, experimentando instrumentos que lhe dão esse poder, pelo menos no que tange seu universo interior de pensamentos e emoções, como a visualização criativa, o sonho lúcido, a meditação.

Mais adiante, o indivíduo, movido por um chamado interno poderoso que pode lhe mobilizar as forças psíquicas, parte em busca de instrumentos mais avançados ainda – como os caminhos da interferência da mente sobre a matéria, lapidados hoje em dia por estudos em laboratórios futuristas como os do Institute of Noetic Sciences – noetic.org – na Califórnia e os da Resonance Science Foundation no Havaí – resonancescience.org -, ganhando maestria em se manter no mundo íntegro, senhor de sua mente e de suas emoções. Isso em que pese o medo e o pavor que assolam o sistema imunológico, debilitando-o, como resultado do pesado clima negativista da pandemia que traz incertezas, chacoalhando o chão que nos dava segurança.

Nessa ascensão, o indivíduo, voando cada vez mais alto para dentro do campo unificado que forma a matriz da realidade, trava contato com a Consciência. Essa, assim com C maiúsculo, referindo-se a uma inteligência, sabedoria suprema. Uma força superior que parece ser o que dá vida e direcionamento potencial a tudo o que existe, numa dança cósmica de interações e complexidade criativa simplesmente magistral.

  À medida que a pessoa evolui, tanto seu horizonte vai se expandindo para abranger no seu visor de domínio territórios e fatores que via anteriormente como desvinculados de si própria, quanto vai conquistando noção ampliada de sua responsabilidade para com o seu destino próprio e o dos outros. Essa é, aliás, uma das lições mais vitais que a pandemia trouxe para a humanidade inteira. Se queremos evitar o contágio, temos de nos proteger pensando também no semelhante. Não adianta colocarmos a máscara facial só para garantir a continuidade dos nossos belos olhos azuis, se não sugerimos ao simples entregador de refeições que faça o mesmo. E não só por nossa conveniência, mas pelo interesse compassivo pela proteção do outro, assim como pelo entendimento tácito de que estamos todos interconectados neste mundo, independentemente de classe social, nível escolar, etnia, faixa etária, sexo ou preferência sexual.

A expansão de consciência vem associada a valores universais e humanos que navegam num território sólido para além das crenças morais rasteiras, e contaminadas por ideologias de baixo calão. O valor de preservação da vida, e não da morte, por exemplo. 

A pandemia e o sofrimento atroz que seu congelamento parcial do funcionamento do mundo tal como o conhecemos provoca traz consigo, paradoxalmente, uma grande oportunidade. Um choque que nos obriga a uma reflexão profunda dos valores, das crenças, dos paradigmas, dos modelos mentais que condicionam os nossos passos, como indivíduos, povos, humanidade, sociedade como todo.

É um choque de transformação de consciência, pois está sendo lançada, à nossa frente, a exposição cristalina do nível de percepção de realidade em que nos encontramos, como pessoas, povos, nações, humanidade. O quadro parece claro: boa parte do mundão que está no centro das coisas por aí – o “mainstream” da sociedade – está jogando no time da involução, aquele que não impulsiona a humanidade para a vida. Ao contrário, cultua a morte no sentido mais amplo, incluindo as ameaças ao próprio planeta geradas pela visão de mundo trôpega e míope que assassina o equilíbrio ecológico dos oceanos, emporcalha o ar, gera as condições desastrosas para esta e outras pandemias catastróficas surgirem.

Parece-me plausível considerar, numa reflexão metafórica, que a Consciência, no seu movimento de estimular o avanço das consciências dos indivíduos e da humanidade, tem pressa. Não suporta mais os efeitos danosos que resultam da grande massa cega que mal enxerga um palmo adiante do nariz, iludida pelos irresponsáveis que em lugar de liderar com a dignidade que suas funções de momento exigem, vampirizam e aprisionam consciências. Presas a visões ambíguas de realidade, essa maioria acorrentada pelo medo maquiavelicamente manipulado pelos poderosos do lado escuro da alma, dá força a malignos senhores e senhoras do poder igualmente cegos que no centro da sua insanidade de líderes de índole assassina conduzem, pelo exemplo insano, milhares ao abismo, nesta pandemia.  

 Está havendo, de fato, uma separação entre o joio e o trigo, no plano metafórico dessa questão da consciência evolutiva. Esta é hora em que a revisão e a mudança de rumo são fundamentais, pois o velho mundo que está aí já deu provas de seu direcionamento destrutivo. Se nossa ansiedade nos faz pensar que precisamos voltar ao “normal”, estamos em maus lençóis. O mundo velho está acabando.

Por força da necessidade de sobrevivência, é que muitas áreas da atividade humana estão em processo veloz de revisão e reconstrução, lavando roupa suja em casa, vindo a público com propostas que são resultado de um “mea culpa” anterior. Muitos desses processos já haviam decolado, mas se aceleram agora, na pandemia, por razões óbvias. Na área financeira, as conversas sobre economia solidária. No mundo dos negócios, a proposta do capitalismo consciente.

É uma busca de propósito, de assumir responsabilidade, de se reposicionar, de cada um e de todos, diante da co-construção necessária, urgente da sociedade. Preferencialmente, uma sociedade da consciência. Pois se o salto de consciência da humanidade – portanto de cada um de nós – não for nessa direção, o perigo é do retrocesso, da involução. Então o sofrimento da pandemia terá sido tristemente em vão.

Mas a comunicação nesse quadro?

Nele posiciono a proposta que denomino Comunicação Construtiva. Tema do segundo texto desta série, em breve.

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