Em estilo de jornalismo literário, autores mergulham no acidente com Césio 137, ocorrido há 30 anos no Brasil

EDVALDO PEREIRA LIMA – PUBLICADO EM 24/10/2018

A jornalista Carla Lacerda, pós-graduada em Jornalismo Literário, em colaboração com o jornalista Yago Sales, reuniram histórias do maior desastre radiológico urbano já ocorrido no Planeta Terra: o acidente com o Césio 137, em Goiânia (GO). Na segunda edição do livro Sobreviventes do Césio 137, a dupla traz histórias reais contadas em formato de jornalismo literário para expor os desastres provocados pelo acidente na vida cotidiana das pessoas e as inconsistências oficiais que persistem até hoje sobre o número de mortes e as dimensões da contaminação. 

“O livro levanta esta denúncia em manifesto contra o apagamento desta história que se iniciou em 1987 e ainda não acabou”, comenta a jornalista. Lançado em 2007 pela Editora Contato, Sobreviventes do Césio 137 recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog, organizado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. Na ocasião, Carla Lacerda era repórter do diário O Hoje e produzia reportagens especiais sobre os 20 anos do acidente radiológico em Goiânia.

A segunda edição conta com a contribuição do colega de profissão Yago Sales, apoio fundamental para a atualização de narrativas. O prefácio foi escrito pelo premiado jornalista e documentarista Vinicius Sassine. A apresentação do livro traz o ponto de vista da editora Larissa Mundim acerca de percepções que ficam mais nítidas com o distanciamento de três décadas do acidente com o Césio 137. Reeditado pela Nega Lilu Editora e relançado pelo Selo Eclea, a publicação do novo projeto editorial foi viabilizada por financiamento coletivo (crowdfunding), por meio da campanha “30 anos sem Leide das Neves”.

 

Literatura e jornalismo

A escrita de Sobreviventes do Césio 137 se ancora nos princípios do Jornalismo Literário, que tem como expoentes autores como Gay Talese e Tom Wolfe. “A partir desta base conceitual e técnica, recontei o trágico episódio do acidente radiológico sob o ponto de vista das vítimas”, explica Carla Lacerda. Segundo ela, a referência para a produção do conteúdo inédito, especialmente escrito para esta segunda edição, é o livro Hiroshima, de John Hersey, considerado um marco do jornalismo literário moderno.

Assim, a jornalista conduz o leitor para aquele domingo, 13 de setembro de 1987, quando um aparelho utilizado para tratamento de câncer – que continha a cápsula de césio – foi encontrado por dois jovens em um terreno baldio onde funcionava o antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), hoje Centro de Convenções de Goiânia. “Como viviam as vítimas? O que sentiram durante a crise? Essas foram algumas perguntas que me motivaram a escrever e a registrar, por meio da história oral, a memória destas pessoas, como um patrimônio”, conta Carla Lacerda.

A publicação contém depoimentos de vítimas que, durante muito tempo, se recusaram a falar sobre o acidente com a imprensa, como os irmãos de Leide das Neves, Lucimar e Lucélia. E testemunhos que não estão mais disponíveis como o de Wagner Mota, um dos rapazes que achou a bomba de césio nos escombros do antigo IGR.

Sobreviventes do Césio 137 começa com uma narrativa cromática evanescente que alerta para a necessidade do registro do discurso não oficial, não institucional contra o apagamento da memória. “De outra maneira, entendemos também este passeio dos olhos pelo azul como expressão do desejo pela descontaminação de todo o preconceito e discriminação que impactam a história de vida das pessoas envolvidas nesta história”, arremata a editora Larissa Mundim. 

 

SERVIÇO

Vendas online: www.negalilu.com.br

Goiânia: Livraria Palavrear

Cidade de Goiás: Livraria Leodegária

Pirenópolis: Avoar Livros

Brasília: Ernesto Café Especiais

Preço de capa: R$ 40

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