Infância e adolescência entre muros 9

Infância e adolescência entre muros

9

Nathalia Maciel Corsi

Um ato de amor recíproco: experiências de adoção tardia – parte 3

JL2015 Texto Site Nathalia Corsi Capítulo 9 Foto 1 003

Tiago e Kívia.

Foto: Laercio Schneider.

Kívia e Tiago, quando foram adotados, com sete e nove anos, não se desgrudavam. Tinha na casa um quarto para cada um. Eles se sentiam mais seguros juntos. Depois de uns 15 dias, Tiago passou a dormir sozinho, mas não conseguia dormir à noite. Não pregava o olho por medo de ser reabrigado diante do mal comportamento da irmã. Talvez alguém tenha incutido esse temor no próprio abrigo. Se você não se comportar, eles vão te devolver. O sono tranquilo só veio quando a mãe percebeu e teve uma conversa franca com ele, afirmando que os dois eram filhos que ela amava muito e não ia devolver de jeito nenhum.

“A Kívia deu muito trabalho. Fazia muita manhã, dava piti para tudo, queria ganhar as coisas no grito. A gente chegou a falar com a nossa vizinha, que se ela escutasse os gritos, não tinha ninguém batendo!”, conta a mãe. Na hora de ir pra escola, ela gritava que não queria ir. Quando o irmão pedia colo para a mãe, ela tinha um ataque de ciúmes, porque a mãe era dela. A garotinha, que viveu durante quatro anos no abrigo, não tinha nada e de repente ganhou muitas coisas. A maioria das roupas e brinquedos chegou até a família doada por amigos, parentes, comunidade da igreja e colegas de trabalho dos pais. Só Barbies dá pra enfileirar e contar 50. Kívia ficou deslumbrada. Para cortar os “pitis” da mocinha, a mãe foi firme. Tirou todas as coisas do guarda-roupa dela, guardou, e restaram apenas 3 mudas de roupa, pijamas, calcinhas e meias. A menina abriu o guarda-roupa quando chegou da escola e levou um susto.

– Cadê minhas roupas? (Perguntava, chorando).

– Você ganhou um monte e fica dando piti, então essas que estão aí são suas, as outras não te pertencem. Se você fizer por merecer, elas vão voltar, se não, vou doar elas. Já que vai ser esse perrengue, então eu estou te ajudando. Eu sou sua mãe. Eu tenho a obrigação de te educar. Aqui não se ganha nada pelo grito.

Kívia captou a mensagem. Na primeira oportunidade, presenteou a mãe com uma cartinha agradecendo.

Obrigada por me educar. Você me ama, porque você me mostra o que é certo e errado.

No início, a estratégia da troca ajudou a estabelecer limites para as crianças. Não comeu, não obedeceu, não escovou os dentes? Então não ganha mesada; não vai na festinha de aniversário do coleguinha. O trunfo da educação dos filhos, contudo, foi o exercício do diálogo. “Sempre demos espaço para eles falarem. Colocamos de castigo, mas queremos saber o que eles acharam dessa nossa postura, assim vamos fazendo eles refletirem com a gente”, coloca o pai. “A gente está ensinando e está aprendendo muito também”.

Os pais Laércio e Brígida Schneider casaram-se em 2011 e, como ele havia passando por um primeiro relacionamento com filhos e era vasectomizado, começaram a pesquisar os diferentes recursos para uma gravidez. A adoção foi o que os tocou. Deram entrada no processo, pensando em adotar uma criança com até cinco anos. Passado o curso de preparação oferecido pela Vara da Infância e Juventude de Londrina, enxergaram de uma outra forma a família que queriam. “A gente tinha a ideia de que (com uma criança mais nova) íamos formar o caráter e não íamos ter certos riscos, mas, no curso, colocaram de forma bem clara o valor da adoção para quem é adotado”, fala Laércio. Uma criança de zero a dez anos, com possibilidade de um irmão, foi o perfil escolhido.

Viajaram para São Miguel do Iguaçu, cidade próxima à Toledo, para buscar os dois irmãos que se encaixavam em seu perfil. Saíram da instituição de abrigamento com uma sacolinha nas mãos. Uma roupinha, uma sandalinha e nada mais. “Tudo o que eles tinham ficou lá, até os irmãos”, reflete o pai. As crianças têm dois irmãos biológicos, que na época já eram adolescentes. O juiz da comarca decidiu dividi-los para que ao menos os menores pudessem ser inseridos em uma família.

– Mãe, quero falar em particular com você. O Isaías quer te chamar de mãe.

O irmão de 13 anos foi passar o Natal e o Ano Novo na casa da família. Brígida e Laércio tomaram o cuidado de deixar muito claro para ele e para as crianças que seria só um passeio de férias, depois ele teria que retornar para o abrigo. A experiência foi transformadora. Carinhoso e prestativo, Isaías encantou o casal, que resolveu dar uma segurada nas contas para que mais um filho coubesse no orçamento. No coração, já estava. Requereram a adoção do menino ao juiz, e Isaías nem precisou voltar para o abrigo.

A adaptação, tanto dos filhos como dos pais, foi mais tranquila com o adolescente do que com as crianças. O único momento de tensão foi quando ele disse não estar feliz. Estava revoltado com as condições do irmão mais velho, Davi, que, tendo completado a maioridade e precisando de cuidados especiais, voltou a morar com a mãe biológica. Isaías sabia que a mãe teve oportunidades, mas não se moveu para tirar os filhos do abrigo. Os pais do coração explicaram que não possuíam estrutura para adotar também o irmão mais velho, mas que, enquanto pais de Isaías, dariam apoio para que ele aproveitasse as oportunidades, estudasse e se capacitasse, podendo um dia conseguir ajudar Davi; buscá-lo se ele quiser. O casal disse, ainda, que prezava pela felicidade de Isaías e que a escolha de ficar ou não seria dele. “A gente falou que se ele quisesse ficar, aqui seria uma nova vida, e que se ele decidisse ir embora, iríamos falar com o juiz e dar um jeito de fazer a vontade dele, mas aí ele não voltaria mais, porque não é uma colônia de férias”.

Quando chego próximo à casa da família, após me perder pelo caminho, Laércio está para fora do portão acenando. Logo na entrada, sou recebida com festa pela cachorrada. Duas poodles e uma vira-lata pretinha magrela. “Até elas são adotadas”, brinca. Foram recolhidas da rua. Brígida está preocupada que elas pulem em mim com as patinhas sujas. E tem jeito? Elas pulam, rodopiam, latem. Sento no sofá da sala e aparece um gato, mais um dos mascotes. O clima é completamente acolhedor. Porta-retratos variados ostentam fotos das crianças. Lindas. Tiago me cumprimenta, tímido, mas muito educado. As sardinhas na bochecha emolduram os olhos bem castanhos. O olhar está fixo num carrinho, mas o ouvido está atento à movimentação ao redor.

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Família Schneider: Laercio, Brigida, Isaias, Kívia e Tiago.
Foto: Cássia Popolin.

Tiago vai com as cachorrinhas para o quarto para que os latidos não atrapalhem a gravação da conversa. Enquanto isso, sua mãe relata pequenos fragmentos da vida das crianças no abrigo que a impressionaram.

Lá eles tomavam medicações fortíssimas pra não trabalhar o emocional. Minha avó tem 86 anos e toma um remédio que eles tomavam. Ela tem Alzheimer e fica muito agitada. O médico fala que é sossega-leão. Quando tá muito agitada, dá isso. É para deixar ela dopada. Então, como era muita criança, acho que eles não queriam ter muito trabalho. É pra dar sonolência. Me falaram que o remédio é antidepressivo e que eles eram sonâmbulos. Eu falei que não ia trazer, que eu ia marcar uma consulta. Se a pediatra fala ‘continua dando’, eu vou. Mas eu não vou dar à toa. Eu cortei. To acompanhando. Eles são muito agitados, à noite querem conversar, falar, andar, mas não é nada que precise tomar remédio. A pediatra disse: ‘Misericórida!’

*

Quando eles chegaram pra nós, o Tiago e a Kívia tinham a boca toda estourada, os dentes, dava até dó de ver, sabe? Eu me assustei! A gente levou no nosso dentista, ele achou que a gente tava exagerando, até que ele mesmo viu. E as crianças falavam ‘Ah, eu achava que era normal’. Para eles aquilo era normal. Teve que arrancar os molares dele.

*

A Kívia tinha necessidade de ficar grudada, principalmente comigo. Beijoqueira. Manhosa. Queria ficar sempre sentada no colo. E é uma coisa que eu não sou, assim, melada sabe? Ela era melada. O Isaías, também, ele é mais necessitado de beijo e abraço toda hora. Ele é grandão assim, mas ele é uma criança, às vezes a gente tá deitado, ele vem e deita no meio. Então, não é que eu não gosto. Eu também não tive isso e to aprendendo com eles. Com qualquer pessoa era assim. Se a Kívia chegasse aqui agora, a primeira coisa que ela ia amar em você é seu cabelo. Porque lá, todas as meninas tinham o cabelo curtíssimo. Tem foto dela ali ó, que ela parece um menino. Então, a gente deixou o cabelinho dela crescer né. Ela é apaixonada por cabelo cumprido. E aí ela já ia chegar, já ia ficar pegando no seu cabelo, já ia grudar no seu pescoço, ficar te beijando. Muito carente. Esses dias tava pensando, acho que ela parou um pouco com isso daí, acho que ela tinha necessidade de se sentir amada. Agora ela beija e abraça, mas não tanto. Chegava a ser irritante. Parece que agora ela tem essa segurança ‘eu sou amada’ né.

Passaram-se dois anos da adoção das crianças e um ano e meio da chegada do filho mais velho, hoje com 15 anos. Isaías escolheu aproveitar as oportunidades e está se empenhando nisso. Já ganhou até tablete no colégio como prêmio de desempenho, através do concurso Aluno Nota 10 realizado pelo Rotary Club de Londrina. Kívia, criativa e desinibida, compôs uma música para futuros pais adotivos. Com a franja presa com tique taque e segurando uma boneca bebê no colo, canta a música em um vídeo, que é destinado a quem tem medo de adotar. Não adotar um bebê como a boneca dela, mas adotar filhos mais velhos. Os meninos mais velhos e meninas precisam também de um lar/ Eu pedi em oração para Deus e ele respondeu, ganhei uma família e fiquei feliz/ Nós somos muito amigos/ Eles também precisam de amor/ Vocês precisam tentar, porque vocês vão conseguir adotar um filho mais velho/ Quem não sabe ainda, precisa ver como é bom.

A família Schneider, cujo único contato com outros casos de adoção era o do vídeo exibido no curso preparatório durante a habilitação, tornou-se modelo. O casal de cabeleireiros foi chamado pela Vara e pelo Trilhas do Afeto, Grupo de Apoio à Adoção de Londrina, para dar seu testemunho. Até a Kívia foi lá na frente falar, do jeitinho dela, que os pais a educaram. Na camisetinha vestida no dia, estavam estampadas as palavras-chave: Adoção Tardia. “Eu coloco as crianças como se fossem benção para a gente em todos os aspectos”, defende o pai. A mãe confirma. “Se eu pudesse voltar atrás, só me arrependo de uma coisa. Eu adotaria os três juntos.”

*Os nomes das crianças e adolescentes abrigados foram substituídos nesta reportagem para proteger sua identidade.

** Esta reportagem foi escrita em agosto de 2015

Matéria produzida originalmente como trabalho acadêmico para o Curso de Pós-Graduação em Jornalismo Literário, epl.

Editora-assistente para esta versão publicada no site www.edvaldopereiralima.com.br:  Larissa Laviano

Acesse todos os demais capítulos dessa matéria.

Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 1
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 2
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 3
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 4
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 5
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 6
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 7
Infância e adolescência entre muros – Nathalia Corsi – Capítulo 8

 

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