O COMUNICADOR NA TRANSIÇÃO

As múltiplas e interconectadas crises de gravidade extrema que vem assolando o mundo há um bom tempo, exacerbadas pela pandemia de 2020, tem provocado reflexões profundas e tomada de atitudes de pessoas, cidadãos e profissionais de todas as áreas, diante desse drama de proporções épicas.  Não seria diferente para o comunicador, considerando aqui, sob este termo, tanto o profissional da comunicação – o jornalista, o escritor, o cineasta, o Relações Públicas, o produtor de tevê, o blogueiro e todos os demais – quanto aquele que em sua função precisa exercer adicionalmente a comunicação, como líder empresarial, executivo do mundo corporativo,  cientista, educador, terapeuta.  

Divulgação. Albert Flynn DeSilver.

As reações e as posturas as mais diversas refletem a pluralidade das opções assumidas, simbolizando, por sua vez, a diversidade de percepções possíveis dessa narrativa gigantesca da qual somos personagens da vida real e coautores, tenhamos consciência ou não disso.

 O tema universal subjacente a esse enredo, como tenho apontado em outros artigos centrados no que estou denominando Comunicação Construtiva, é mesmo o da evolução – tal como formulado em princípio por Pierre Teilhard de Chardin – e da expansão da consciência. A humanidade inteira está impulsionada, pelas circunstâncias, a um salto de transformação desafiador que nos envolve em todas as instâncias da vida individual, do convívio social, da estruturação da sociedade tal como a concebemos.  A civilização estabelecida neste planeta está passando por um choque de tremendo impulso transformador, com um destino incerto.  A resposta depende de como vamos reagir às dores e ao sofrimento que podem nos impelir para uma edificação de um novo mundo. Ou para o retrocesso ao lado mais sombrio do velho mundo que predomina, por enquanto.

O papel da comunicação nessa transição é vital para a sociedade, por seu efeito de impacto sobre as consciências individuais e sobre a coletividade.  Seja qual for a direção pela qual vamos pender, o momento agora exige de cada um abandonar a – não mais confortável – posição de cima do muro.    

O espectro de posicionamento dos comunicadores inclui distintas direções, aponto duas delas.  Num extremo, estão pessoas de uma postura admirável, movidas por um sentimento de combate às injustiças sociais com uma fibra e uma coragem absolutamente notáveis. É o caso de Eliane Brum, colunista de El País, a quem considero, pessoalmente, com um carinho fraterno e respeito enorme pelo seu talento e pela sua sensibilidade para com o ser humano marginalizado socialmente. Quem não conhece seu trabalho tem um cartão de entrada nesse vídeo recente – https://www.youtube.com/watch?v=AMr8V6PjGm4&feature=youtu.be – em que enfatiza denúncias ao desgoverno tragicamente patético de quem está no poder executivo federal, no momento, quanto às questões da pandemia, do genocídio de povos indígenas, do desmatamento da Amazônia, do ataque à educação, ciência, cultura e meios de comunicação, do racismo, do aquecimento global.

Essa mesma indignação quanto ao estado de injustiça social implantado até mesmo no país considerado o de democracia mais avançada do mundo, os Estados Unidos, mobiliza reações como a do meu colega story coach Albert Flynn DeSilver – https://www.albertflynndesilver.com/ -, conclamando os escritores – e comunicadores, por extensão -, profissionais ou amadores, a assumirem seu lugar no mundo, nesta hora de tanta aflição.

Diz Silver, impactado pelo trágico assassinato de George Floyd pela polícia de Mineápolis:

“Sei que vivemos tempos sombrios, mas esta é uma hora extraordinária para estarmos vivos. Alguém vai precisar se articular e falar de novos paradigmas em torno de justiça, policiamento positivo, saúde pública e reforma governamental. Os sistemas que serviram a poucos em detrimento de muitos estão questionados em larga escala, estão quebrados e precisam ser reimaginados.  Só podem ser efetivamente reimaginados através da luz da consciência, através da luz da ação compassiva, através da luz da inclusão pelo coração.  Este é o seu chamado, precisamos de SUA voz e a hora é AGORA!”

Penso que a fala de Albert é muito oportuna porque abre um ângulo para percebermos um perigo interno, na profundeza de sua psique, que correm os comunicadores intensamente mergulhados nas questões deploráveis do lado absurdamente destrutivo dessa nossa sociedade insana. Como comentei em artigo anterior sobre o efeito dos acontecimentos – sociais e individuais – e das mensagens públicas, sobre a psique dos indivíduos e do inconsciente coletivo, uma possibilidade é da intoxicação psíquica, a formação daquilo que o psicólogo social Dante Moreira Leite, da USP, chamou de “pensamento destrutivo”. Essa armadilha psíquica pode afetar o autor da mensagem, além dos seus receptores. 

É o velho paradoxo do profissional de saúde.  Ao mergulhar na patologia do outro, o profissional sofre o risco da contaminação, algo que pode se tornar desastroso. No caso do comunicador que transita pelo território pantanoso das horríveis mazelas da humanidade, o desafio para sua alma é dar vazão ao seu movimento de denúncia e combate, se é essa sua opção, cuidando ao mesmo tempo, porém, para que um manto de reserva e proteção mantenha sua integridade psíquica saudável. É como o terapeuta que precisa se sensibilizar pela esquizofrenia do paciente, para estabelecer uma comunhão curativa com ele, mas simultaneamente precisa proteger-se para não levar o resíduo psíquico tóxico para suas entranhas e aí poluir de maneira trágica sua própria estabilidade emocional.

É um desafio de enorme complexidade.

Como caminhar nesse fio de navalha? Como andar pela insegurança e pelo pavor do desconhecido, cumprindo o seu papel que entende importante contribuição para o mundo, mas sem afetar de maneira drasticamente nociva a sua integridade psico/emocional interior?

Creio que a resposta a esse desafio passa por um só caminho, tanto para o comunicador, quanto para qualquer pessoa e profissional hoje em dia, diante do quadro que vivemos: em paralelo às ações que a pessoa precisa tomar no mundo externo, social, precisa cuidar do seu processo de conhecimento e transformação interior. Precisa mergulhar nos modelos mentais que alicerçam sua visão da realidade, ascendendo a consciência para o nível que for capaz, naquele momento.

As ciências de vanguarda e o conhecimento transdisciplinar nos trazem muitos instrumentos para essa jornada. Na comunicação, profissionais de ponta têm incorporado essas abordagens e direcionado a escrita – quando não a comunicação como um todo – para cumprir esse papel de arqueologia, investigação e transformação interior.

De há muito que tive a oportunidade de desenvolver algo nesse sentido, a proposta do Jornalismo Literário Avançado e do método Escrita Total de escrita criativa. Incorporam elementos procedentes da psicologia junguiana, da mitologia, da neurologia aplicada, do psicodrama, da psicologia positiva. Mais recentemente, tenho desenvolvido a Comunicação Construtiva, que absorve técnicas avançadas da busca de ação coerente entre a inteligência do coração e a do cérebro, conforme desenvolvimentos do HeartMath Institute – https://www.heartmath.org, na Califórnia. Desenvolvimento profissional, no meu entender, não pode mais estar dissociado do desenvolvimento pessoal.   

Colegas story coaches têm vindo a público, no exterior, com propostas significativas que fazem ponte entre a escrita e o autoconhecimento. Além de Albert Flynn DeSilver, encontro os trabalhos louváveis de Mark Matousek – https://www.markmatousek.com/ – na América do Norte e Julia McCutchen – https://www.juliamccutchen.com/ – na Grã Bretanha, todos mostrando o caráter transformativo da escrita. Por extensão, considero o poder transformador da comunicação como um todo, abrangendo não só a coletiva, da indústria cultural e dos meios digitais, mas também a interpessoal, da vida cotidiana. 

No âmbito público, profissionais de vanguarda de outras áreas do conhecimento têm se revelado igualmente ótimos comunicadores, trazendo mensagens de impacto que contribuem para alavancar de fato as consciências para um patamar elevado. Assim fazia a extraordinária futurista Barbara Marx Hubbard – https://www.barbaramarxhubbard.com/ – falecida o ano passado aos 88 anos, propondo a comunicação como o principal elemento para a transição evolutiva da humanidade, em curso, para uma nova espécie, a do homos universalis. Assim faz Bruce Lipton – https://www.brucelipton.com/ – grande divulgador da epigenética, a nova biologia das crenças e das emoções que condicionam nossa percepção da realidade. Assim fazem, no Brasil, Rosa Alegria –  http://rosaalegria.com.br/ – com seu trabalho de futurista de visão sistêmica e humanista, e a psicóloga Deborah Dubner – http://deborahdubner.com.br/ – com sua campanha de mobilização dessa emoção positiva de tamanho poder transformador, a gratidão.

O efeito disso tudo sobre os comunicadores ainda inseguros, diante do que está acontecendo?

Minha colega story coach Tanya Taylor Rubinstein – https://www.storyleaderglobal.com/ – produziu uma carta exemplar no início da pandemia, refletindo empaticamente o estado de comunicadores tímidos, assustados pelos acontecimentos, indecisos do que fazer.  É uma situação que, tirados os aspectos típicos do comunicador, serve para todo ser humano tocado pela ressonância sensível do que está acontecendo.

Diz Tanya, no artigo:

“Há quanto tempo você sente que algo como isso poderia acontecer nas vidas de todos nós? Há quantas décadas você tem vivido no terror existencial e na angústia pelos seus filhos e pelo planeta?

Você sentiu essas coisas não porque quis, mas porque não podia evitar.  Você foi feito para sentir isso tudo. Desde a infância, você recebeu informação de muitos níveis diferentes, mesmo tendo sido condicionado a duvidar de si mesmo”.

E mais:

“Você foi marginalizado por sua natureza profundamente intuitiva.  Amigos que são capazes de ‘trabalhar dentro do sistema’ (qualquer sistema, escolha qualquer um) não o entendem muito bem. Eles podem amá-lo, mas você está sempre um pouco à margem do centro de seus mundos”.

E então:

“Talvez você tenha pensado em você mesmo como fraco. Eu pensei, sobre mim mesma. Você não é. Você é forte como aço quente, quando se trata do amor. Você é incansável quando se trata do despertar”.

Mas agora…

“Ironicamente, neste tempo de desconstrução e da velha clássica destruição (bem vinda Kali, já nos encontramos antes), você está destinado a sacudir a poeira e se levantar. Profetas da nova Terra, Alice Walker, Joanna Macy e Bill McKibben fizeram o melhor para preparar as massas para este momento. Poucos ouviram, menos ainda tomaram ação. Mas nós, sim.

Já sabemos o que é trabalhar na periferia dos paradigmas dominantes. Nós nunca nos encaixamos direito, para começar. Bem vindos à Vida 101, Amigos, onde nossos talentos podem ser vistos e celebrados”.

Ah, tem mais uma coisa da Tanya:

“Se sobrevivermos à crise, vamos crescer”.

Sentiu o chamado? 

Comunicador ou não, a vida está colocando na sua porta, especialmente aqui no Brasil, bombardeado por essa reação estapafúrdia de certos governantes à pandemia e pela inconsciência suicida de milhões, um alerta. Para olhar para fora com olhos não mais ingênuos e olhar-se também para si, com amor. Ter a coragem, de herói ou heroína da vida real, em seguir adiante, pular no desconhecido da aventura de se reinventar. Co-construir o mundo. O seu, o meu, o nosso. Se ousarmos. A sociedade consciente é um sonho no horizonte próximo, mas começa em cada um de nós. Agora.

P.S. Se você está interessado em conhecer mais a Comunicação Construtiva e como posso apoiá-lo como story coach ou mentor, bem como através dos meus cursos e webinars, entre em contato. Siga-me. www.edvaldopereiralima.com.br 

Um bom ponto de partida pode ser este webinar, da minha série centrada no cinema, na arte do storytelling de vidas e no estímulo ao seu desenvolvimento profissional e pessoal, através de técnicas dessa prática.

https://blog.edvaldopereiralima.com.br/webinar-cinema-e-sua-historia-de-vida-jornada-de-autoconhecimento-transformador-estrelas-alem-do-tempo/ 

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