Escrita Consciente

Edvaldo Pereira Lima – publicado em 27/07/2018

É predominante no mundo literário e artístico a crença de que para criar o artista precisa sofrer. Dor de cotovelo gera composição de boas músicas, depressão faz nascer bons poemas, neurose produz bons romances, ceticismo com a vida dispara a escrita de boas reportagens.

Pensamos que a escrita só tem fonte no inconsciente e no lado sombrio do ser humano.   Por isso tanta produção narrativa carregada de tons pesados, muitas delas abordando o lado cruel, destrutivo, negativo da humanidade.   Por isso tantas narrativas que ajudam a aumentar o lixo psíquico coletivo no qual vivemos mergulhados na sociedade global contemporânea, transportando histórias que só provocam instabilidade interna.  Podem chocar e provocar indignação, às vezes, se o alerta mobilizar o suficiente a sensibilidade do leitor para uma ação transformadora (mesmo que seja simplesmente sua tomada de consciência de alguma coisa inaceitável, sob determinados valores). Na maioria das vezes, porém, podem provocar uma certa estagnação emocional no leitor, deixando-o com a sensação de que não há saída para os tantos problemas que enfrentamos nessa civilização de cultura agonizante em que vivemos.

Para o escritor, a produção de textos dessa categoria, darks, nebulosos psiquicamente, de apresentação de conflitos sem saída, pode servir para desopilar o fígado, para compartilhar suas mágoas, dores e sofrimento.   Mas não levam muito longe, talvez, em termos de transformação (do escritor), superação e elevação da consciência para um nível mais saudável de percepção da realidade.

Na verdade, muitos artistas percebem essa relação algo neurótica entre seus temas, seu processo criativo e sua estabilidade psicológica. Mas preferem fazer nada a respeito, com a crença absurda que já vi se manifestar de algum modo em muitos artistas consagrados das diferentes artes de expressão.  “Se eu me cuidar, onde vai parar minha inspiração artística?”, se defendem.

Felizmente estamos começando a redescobrir que não precisa sempre ser assim.  A escrita pode nascer do lado luminoso do nosso interior.   A fonte pode residir na saúde, na alegria e no amor, não na doença, na patologia, no desespero de alma.  E o melhor: podemos procurar criar a partir de um movimento consciente em direção a essas fontes de saúde, de onde brota o belo, o harmônico, o sublime.

Junta-se a essa constatação outro resgate: o passado da tradição literária e da herança cultural para nossa era atual não se esgota na produção de qualidade narrativa – mas  de abordagem sombria -, nem resulta apenas do mergulho do artista no seu lago criativo inconsciente e profundo do seu interior contaminado por algum tipo de patologia  resultante de nossa sociedade  doente, profundamente alienada  e distante do lado luminoso do ser humano.

Resgata-se, cada vez mais, o legado de autores que produziram a partir de suas fontes internas saudáveis, na poesia, no ensaio, na ficção. Produziram a partir do belo e da alegria de viver, não a partir da dor.

Esse caminho está cada vez mais disponível para todos nós, escritores do século XXI, assim como para todos aqueles que desejam começar a produzir textos – especialmente biográficos -, movidos por algum chamado pessoal importante, mesmo que não tenham experiência profissional nesse campo.

Essas novas possibilidades estão construídas muitas vezes com o apoio de práticas e procedimentos novos que procedem de outras áreas do conhecimento, que não as artes e a teoria narrativa, em si. Procedem, às vezes das descobertas revolucionárias da nova ciência, como os conceitos de neuroplasticidade e neurônios espelho, de campos morfogenéticos, e assim por diante.

A simples contemplação da Natureza e a interiorização do escritor, em processos estruturados ou espontâneos de meditação, por exemplo, são dois caminhos acessíveis à disposição de qualquer um que deseje explorar essa ideia: o bom texto pode nascer  do movimento do artista em direção intencionada à sua própria fonte de luz interna, não precisa continuar escravo da mente egoica que escraviza nosso olhar na morte, na dor, no sofrimento e na ignorância absurda de quem somos nós, de fato.

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