JOAN DIDION E O ENSAIO PESSOAL

Ícone do jornalismo literário americano dos anos 1960 e 1970, expoente do ensaio pessoal, Joan Didion faleceu dia 23 passado (dezembro 2021), aos 87 anos.

Sua grandeza estrelar no cenário cultural dos Estados Unidos repercutiu tardiamente por aqui. Em 2006 a Editora Nova Fronteira lançou seu primeiro livro no Brasil, “O Ano do Pensamento Mágico” – ensaio pessoal sobre sua viuvez -, seguido em 2011 de “Noites Azuis”, ensaio pessoal sobre a morte de sua filha adotiva, Quintana Roo.

Somente agora em 2021, no início do ano, é que o Brasil conheceu sua obra-prima “Rastejando Até Belém”, lançamento da Editora Todavia, do original de 1968. Outro seu livro original dessa mesma época, retratando os anos loucos da Califórnia da contra-cultura das décadas de 1960 e 1970, também só ganhou versão brasileira neste ano de 2021. “O Álbum Branco”, lançado pela HarperCollins Brasil, que já havia reeditado os títulos mais recentes citados no parágrafo anterior.

Tenho comentado, analisado e compartilhado os livros de Joan do gênero ensaio pessoal nos meus cursos, inclusive no “EscritaTherapia – Como Enfrentar a Ansiedade Sem Medo”, recentemente lançado em parceria com Monica Martinez na plataforma EAD do meu site, procurando estimular sua prática tanto por escritores e jornalistas, quanto por pessoas de outras procedências culturais, que não a literária. Isso exatamente pelas características intuitivas que o tornam acessível a todo escritor, amador ou profissional.

A seguir compartilho um excerto de “Rastejando Até Belém”, igualmente disponível no site da Todavia – https://todavialivros.com.br/livros/rastejando-ate-belem -, uma amostra do talento primoroso dessa autora notável que também se destacou como escritora de ficção e roteirista de cinema.

Para quem deseja conhecê-la mais, recomendo o documentário sobre Joan disponível no Netflix – ” The Center Will Not Hold” – com legendas em português.

“Esta é uma história de amor e morte na terra do ouro, e começa no campo. O Vale de San Bernardino fica a apenas uma hora de Los Angeles, na direção leste, pela rodovia San Bernardino, mas em certos sentidos é um lugar atípico: não a Califórnia costeira dos crepúsculos subtropicais e dos suaves ventos do oeste vindos do Pacífico, mas uma Califórnia mais severa, assombrada pelo Mojave do outro lado das montanhas, devastada pelo calor e pela secura do vento de Santa Ana, que desce pelas encostas a 160 quilômetros por hora, ruge pelos quebra-ventos de eucalipto e dá nos nervos. Outubro é o pior mês de ventania, o mês em que é difícil respirar e as colinas ardem espontaneamente. Não chove desde abril. Toda voz parece um grito. É a estação do suicídio, do divórcio e do pavor arrepiante, onde quer que o vento sopre. Os mórmons se estabeleceram nessa paisagem sinistra e depois a abandonaram, mas não sem antes plantar a primeira laranjeira, de modo que pelos cem anos seguintes o Vale de San Bernardino atrairia um tipo de gente que imaginava poder viver rodeado da fruta talismânica e prosperar em meio ao ar seco, uma gente que trouxe consigo as maneiras do Meio-Oeste de construir, cozinhar e rezar e que tentou enxertar esses costumes na terra. O enxerto tomou formas curiosas. Essa é a Califórnia onde se pode viver e morrer sem nunca ter comido uma alcachofra, sem nunca ter conhecido um católico ou um judeu. Essa é a Califórnia onde é fácil ligar para o Disque-Devoção, mas é difícil comprar um livro. É a terra onde a crença na interpretação literal do Gênesis se transformou imperceptivelmente em crença na interpretação literal do Pacto de sangue; a terra dos penteados volumosos, das calças cápri e das meninas para quem a grande promessa de vida se resume a um vestido de noiva branco de cauda curta e a dar à luz uma Kimberly ou uma Sherry ou uma Debbi e depois divorciar-se em Tijuana e retomar o curso de cabeleireira. “Éramos jovens e inconsequentes”, dizem sem arrependimento, e olham para o futuro. O futuro sempre parece atraente na terra de ouro, porque ninguém se lembra do passado. Este é o lugar onde o vento quente sopra e os velhos hábitos não parecem relevantes, onde a taxa de divórcio é o dobro da média nacional e onde uma a cada 38 pessoas mora num trailer. Aqui é a última parada para todos que vêm de algum outro lugar, todos aqueles que fugiram do frio, do passado e dos velhos hábitos. É aqui que essas pessoas buscam um novo estilo de vida, e fazem isso nos únicos lugares onde sabem procurar: nos filmes e nos jornais. “

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