‘A vida que me criou assim’ 2

Laila 3 virginia bastos de mattos 2

‘A vida que me criou assim’

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Laila Braghero Vicente

 

A casa e ela

Laila 3 virginia bastos de mattos 2Além de professora, Virginia também é escritora, ainda que não goste muito do título, tampouco de ser chamada de autora. Em 1986, ajudou o marido na preparação final do livro sobre o capivariano Rodrigues de Abreu, intitulado Vida, paixão e poesia de Rodrigues Abreu. Dezoito anos depois, coordenou a publicação de A ronda nas ruas: a história nas ruas de Capivari, por meio do Movimento Capivari Solidário. A obra contém dados históricos de Capivari contados a partir dos nomes das primeiras ruas.

E, no mesmo ano, publicou Léo Vaz: o cético e sorridente caipira de Capivari, jornalista que, entre outros periódicos, dedicou mais de 30 anos de sua carreira ao jornal O Estado de S. Paulo, como redator, secretário e, por último, diretor, durante o exílio de Julio de Mesquita Filho. Hoje, Virginia disse que não escreve mais. “Eu escrevia muitas cartas. Tinha muitos parentes. Mas, com a internet e o telefone com mais facilidade fui largando.”

Os encontros do Movimento Capivari Solidário, que eram semanais, quase não ocorrem mais. “Eles estão se espaçando muito”, desde que um dos fundadores e então presidente, Waldemar Thomazine, morreu, no ano passado. “Eu viajava muito. Agora não tenho compromisso nenhum. Eu espero que venham na minha casa. Quase todo fim de semana eu tenho alguém. Eu gosto que venham.”

Embora tenha uma família grande, Virginia mora sozinha. “Eles não têm condições de morar aqui. Tiveram de sair por causa do trabalho, alguns para terminar a faculdade”, justifica. “Uns vêm me ver com mais frequência. Outros são mais difíceis de sair. Todo mundo fica tão cheio de serviço.” Durante a semana, almoça com Railda. “Eu gosto dela”, sorri.

As manhãs sempre passam rápido na casa cor-de-rosa, para a escritora. Suas atividades variam entre acordar não muito cedo, ajudar a “fazer alguma coisa”, tomar um pouco de sol e andar pelo jardim, também com o auxílio da cuidadora. “Quando tem mais gente pra almoçar eu dou ajutório, mas essa moça é muito esperta e de boa vontade. Em geral ela faz.”

Me convida para conhecer a casa. As paredes são repletas de quadros, porta-retratos, espelho, crucifixo, caixinhas com ambientes em miniatura feitos por Maria Luiza e Maria Virginia e muitas lembranças. Os móveis têm um ar provincial e combinam entre si pelo mesmo tom de madeira, escura, de mogno. Acima das nossas cabeças, um lustre muito antigo exibe uma cúpula cor de laranja com o desenho de uma árvore repleta de galhos.

Logo acima do sofá em que eu estava cinco molduras chamam a atenção. Os sogros de Virginia, duas antigas fotos do casal português, fazem companhia a Carlos, que está em outra imagem tirada em Grand-Place, em Bruxelas (Bélgica), 40 anos depois que ele se formou no país. “Ele teve uma morte muito suave. Foi um santo. Uma pessoa muito boa e humilde.”

– Do que ele morreu?

– Fragilidade da vida.

Ao lado, papéis amarronzados destacam fotos mais pretas do que brancas do pai de Virginia, Benedicto, que foi desembargador, e do tio, em cuja casa ela nasceu. “Era cunhado da minha mãe.” A outra fotografia é para se lembrar de Leonardo Van Acker, que foi seu professor de Filosofia. “Eu fui aluna dele e tinha uma grande admiração.”

À minha direita, atrás da mesa principal, uma coleção de pratos antigos. “Todos têm uma história.” Um foi da avó, outro tem a imagem de Dom Quixote, um terceiro estampa a Torre de Pisa, na Itália, presente de Maria Luiza. “Esse azul grande foram os alunos do ginásio que me deram no Dia das Mães. Tem o nome de cada um dos meus filhos. Ainda não tinha o Otavio”, explica, apontando um prato que lembra um mapa.

As amigas pintaram a maior parte dos itens: Meiri, Dirce, Iolanda. Outros a própria Virginia. “Essa também foi a Iolanda”, continua, mostrando uma louça verde com três flores. “Ela tentou camélias, mas é difícil, porque são brancas e não têm centro. E aqui foram os holandeses que estiveram em nossa casa”, diz sobre um pires. “Eram parentes do padre Eusébio e eu os hospedei aqui.”

Em 2008, a professora recebeu da Câmara de Capivari o título de Cidadã Capivariana. Como forma de homenageá-la, os filhos deram a ela a estátua de uma capivara. A peça fica exposta junto ao desenho de um galo em patchwork, também feito por Maria Luiza. “Ela faz trabalhos assim, miudinhos. Esse foi um dos mais recentes que ela fez. É muito bonito.”

Uma porção de livros catalogados depois, chegamos ao “escritorinho”, no fim do corredor, onde os filhos costumavam estudar.

– O que é aqui? – aponto um papel com vários títulos pregado na parede.

– São os livros que eu empresto. Eu marco, porque se não, não vem mais. Eu acho que foi a Guta [Maria Augusta] quem escreveu pra mim.

Imagens de santos produzidas por artistas diferentes, com técnicas diferentes; uma pintura feita por um dos filhos; livros e mais livros; um computador antigo; uma reprodução em mármore da Escola Normal Caetano de Campos; o diploma do marido. “O Carlos não é Lopes. Ele é Alves de Mattos. Eles acham que quem foi transcrever não entendeu”, aponta o nome no papel timbrado.

Antonio Carlos completa: “Quando ele estava no primário não precisava ter documento e talvez ele assinasse certo. Quando ele foi fazer o Serviço Militar, eu tenho a ficha dele, ele assinou na beirada da ficha Alves de Mattos, mas a letra dele era muito apertadinha e dava para entender que era Lopes, então o funcionário do Serviço Militar datilografou Lopes de Mattos”.

Continua.

A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 1
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 2
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 3
A vida que me criou assim – Laila Braghero Vicente – Capítulo 4

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